20 março, 2005

Contra o Brasil, contra os brasileiros

Diogo Mainardi, escritor paulista nascido em 1962, freqüentou o mesmo colégio metido a besta que os integrantes dos Titãs. Foi do grupo verdadeiramente alternativo que havia por lá. “Eu ia de botinha italiana, só para provocar.” Como qualquer brasileiro que tenha vergonha na cara, se considerava autodidata e se mandou para a Inglaterra para pedir alguns livros para o Ivan Lessa. Morou algum tempo em Veneza e foi amigo do Paulo Francis e do Gore Vidal. Hoje, de volta a pátria amada idolatrada, escreve na revista Veja e volta e meia tenta ligar para o presidente Lula.

No seu livro “Contra o Brasil” (Companhia das Letras) ele detona não só os que são admiradores do Arnaldo Antunes mas qualquer idiota que ainda acredite no Brasil. Pimenta Bueno, o herói cafajeste, é descendente da decadente burguesia paulistana. Sua fórmula é mais a mais chata possível, um brasileiro chato, que não para de fazer citações de homens sérios que passaram por essas terras infrutíferas. O retrato é cruel. Estragamos qualquer um. Albert Camus quando esteve no Brasil escreveu que queria morrer. Só foi conseguir isso quando foi embora do país. Levi-Strauss perdeu o rumo de suas pesquisas quando conheceu a tribo Nambiquara durante sua visita ao Mato Grosso. Só foi retomar o rumo quando se mudou para os Estados Unidos. O português Thomas Antônio Gonzaga, depois de tentar ajudar na luta política no país, foi exilado em Moçambique. Só lá conseguiu arrumar sua vida e nunca mais quis voltar... Nada no Brasil dá certo, o país acaba com qualquer idéia. Somos burros e sem individualidade. Nossa moralidade é perdida a qualquer custo. Somos índios primitivos e agimos por instinto. Adoramos ser enganados pelo governo. Morremos todos em chamas no meio do mato. “Contra o Brasil” é o retrato mais fiel da nossa decadente tentativa de sociedade. Ó pátria amada idolatrada, não há quem lhe salve...

“Contra o Brasil e contra os brasileiros
De todos os países da história
Em infâmia nós somos os primeiros
A nossa raça? Pura, pura escória
Índios e brancos, negros e mestiços
Estirpe ordinária, vil, inglória
Pátria sem encantos, sem feitiços
O céu, o mar, a selva tropical
Paisagens e cenários postiços!”

09 março, 2005

Por que eu discuto

Eu discuto desde pequeno, sempre gostei. Quando eu tinha 5 anos um amiguinho pegou meu carrinho e quis roubar porque o meu tinha controle remoto e o dele era de fricção. Eu expliquei que esse era o problema das economias fechadas como a brasileira que taxavam todos os produtos importados, mesmo quando o Brasil não produzia eles. Ele ficou me olhando. Eu disse: É, isso faz com que o carrinho fique muito caro e teu pai não tenha dinheiro para comprar. Ele me devolveu o carrinho, brigou com o pai dele, e nunca votou no PT. Quando eu tinha 12 um amigo meu disse que eu era muito rico (o que era claramente um insulto) porque eu tinha um boné importado. Daqueles com oito linhas bordadas na aba, etiqueta dentro, símbolo da liga do lado e bordado bem na frente "Olando Magic". Isso no meio do recreio com todas as minhas coleguinhas em volta rindo. Eu disse para ele que com a queda do valor do dólar e com a facilitação às importações que vieram em conseqüência do plano real hoje todo brasileiro de poder aquisitivo médio podia se dar ao luxo de ter um boné como aquele. Falei também que esse era um dos méritos da globalização e que se ele quisesse um era só não comprar as figurinhas do campeonato brasileiro durante um mês que ele teria mesada suficiente para ter um igual. Foi o que ele fez, e a guria que eu gostava e que sempre dançava música lenta com ele passou a dançar comigo. E até me deu um beijo. Sempre deu certo, nunca achei motivo para parar. Quando eu estava me formando no colégio um amigo veio me convencer a fazer militância para o PT. Eu disse que não. Que partidos que tem militância organizada tem tendências totalitárias. Um cara que deixa de ver o futebol na TV, ou deixa de ir no shopping para andar pelas ruas com bandeirinha do seu partido com certeza sofreu lavagem cerebral e merece tratamento psiquiátrico. Ele pensou melhor e também voltou a assistir os jogos conosco, o que na época começava a ser acompanhado por uma caixinha de Polar, o que tornava o programa ainda mais interessante. Na faculdade, no primeiro semestre, eu descobri que nem se precisa abrir a boca para discutir, dá para se conseguir bons resultados só avacalhando. Uma gatinha veio um dia me contar sobre o movimento social dentro da medicina. Ela disse que os eventos como o ECEM, onde os alunos burgueses iam só para beber, na verdade eram muito interessantes porque tinham grandes palestras organizadas pela DENEM. Até hoje eu me questiono sobre o significado das siglas. Ela disse que o movimento era grande e era até apoiado pelo MST. Me impressionei, e quando teve o próximo congresso eu fui. Era o COBREM (nem idéia do que significa). Eles discutiam o dia todo e a parte divertida era andar por cima das cadeiras ("Não vale pisar no chão!"), falar mal da lei do ato médico e também incomodar os coleguinhas de direita. Não me diverti. Quando tive a chance chamei o meu amigo, colocamos um CD de funk anti-feminista, compramos vodka e fizemos uma festa no nosso alojamento. Foi enchendo. Quando os líderes do movimento estavam escovando os dentes eu corri e fechei o registro geral de água. Quando me dei por conta a diversão estava rolando e todo mundo estava sendo acordado para dançar no corredor. Não vejo nenhum motivo para parar de discutir, ser do contra é bom para tudo e para todos. Sempre arrumem um amigo assim.

 
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