15 maio, 2005

Eu fui no Fórum Social Mundial

Curiosidade mata, e te faz ir até o abismo. Cheguei lá e vi três metaleiros tomando uma Coca bem gelada. Disse pra eles que não podiam tomar ali, perguntei se eles não sabiam das regras do fórum. Eles disseram que não, e o mais punheteiro deles começou a dizer que era mesmo uma merda, que ele não sabia por que estava tomando, o sincero disse que sabia que era ruim mas não conseguia parar de tomar. A mina ficou me olhando. Dei minha garrafa de água Sarandi pra eles, mostrei o balão da marca, sinal de permitido, e fui pro meio do furdunso. Tinha uma banca com um pôster do Stalin. Eram de briga. Cheguei de cara: “O meu, esse ai matou 100 milhões meu, como que vocês conseguem defender ele!” O gurizão perdido, nem sabia o que estava fazendo ali, me disse que não sabia discutir aquilo e foi chamar o "professor". O professor era um carinha despretensioso e de camiseta suja e óculos fundo de garrafa que chegou me dizendo que na luta de classes a reação burguesa era o que trazia as mortes. Disse que meu número de 100 milhões era alto demais, e eu justifiquei que essas eram as vitimas do comunismo. Uma mina quis fazer gracinha e me perguntou se eu tinha lido isso no "Livro Vermelho do Comunismo". Eu e o professor olhamos pra ela com cara de veteranos do Vietnã. Ela ficou sem graça. O professor começou a me chamar de professor. E me disse que eu tinha que ver que essas mortes também foram causadas pela segunda guerra e pela luta russa contra os invasores burgueses. Que eu tinha que entender que se alguém quiser fazer uma reforma no campo tem que armar mesmo o povo porque a burguesia vai reagir, como (segundo ele) ela faz aqui. Ele argumentava parecendo muito inteligente, bem tranqüilo e seguro do que estava dizendo. Apertei a mão dele, peguei uns panfletos e marcadores de livro, a mina que me perguntou sobre o livro vermelho do comunismo me ofereceu um livro sobre a China com tudo que eu precisava saber sobre o Mao. Fui ver as gurias tomando banho de biquíni.
Feias. E uns tiozão fumando um cigarro sentadinhos nos tocos de árvore e dando uma conferida. Um gurizão escorado num murinho e babando. Sem graça.
Vi uns punks cheirando cola na cara dura. Anarquia é isso mesmo. Vi também os meus colegas da medicina engajados no movimento social. Os mesmo que me possibilitaram uma foto ao lado do João Pedro Stédile. Eles (como bons futuros médicos) tem trancado todas as cadeiras possíveis na faculdade e estavam agitando manifestos no "Setor Che Guevara". Fui conferir as banquinhas.
Desde decoração para quartos de criança até lagartos psicodélicos de arame. Coca-cola quem estava vendendo era uma crioula pobre, parecia boa pessoa. Usava um uniforme da Coca com direito a toldo no carrinho. Perguntei se ela sabia que não podia vender Coca lá. Um golpe fundamental contra o imperialismo. Ela ficou com medo e ameaçou ir embora, eu disse que eu só queria uma Coca e não estava achando por lá. Ela ficou mais tranqüila e abriu um sorriso. O filho dela (que não era o único trabalho infantil usado no fórum) abriu o carrinho pra me pegar uma. Cansei.
Na saída vi um casal de anarquistas rastafaris. Eram sinceros. Falei que de anarquistas não tinha ninguém lá, que aqueles caras estavam defendendo estado em todo lugar, queriam aumentar impostos, redistribuir renda, meter o pitaco na vida de todo mundo. Eles concordaram. O cara tinha escrito na camiseta dele "para acabar com a miséria é preciso acabar com o estado". É. Passei ainda por uma manifestação, briguinha de bairro entre o PT e o PSTU. "Juventude, petista, de esquerda e socialista!" Muito fraca a rima. Liguei o ar e fechei os vidros do carro.

*Texto antigo, só para constar aqui.

 
Web Ring Liberal
Ring Owner: Julio Belmonte Site: Web Ring Liberal
Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet
Site Ring from Bravenet