23 junho, 2005

Os altos círculos do poder

Eu costumava freqüentar um barzinho aqui perto de casa onde me encontrava com um amigo para tomar uma ou duas cervejas e conversar sobre o que observávamos nos jornais e na TV. Acreditávamos estar diante da decadência da civilização ocidental. As mesas do bar eram de madeira, com toalhas de plástico azul e branco. Um senhor se sentava com duas ou três meninas. As vezes entrava um pai de família e o cumprimentava: “Como vai, seu Castanha?”. Quatro ou cinco trabalhadores do bairro apareciam por um tempo e tomavam sua bebida com tranqüilidade, depois voltavam para empurrar os seus carrinhos com papeis e plásticos. O dono do estabelecimento era eficiente e atencioso, sempre com um sorriso aberto enquanto trocava os cinzeiros das mesas. Todo mundo se conhecia e conversava numa boa, nunca vi uma discussão ou briga, nem quando a máquina de bingo eletrônico trancava a moeda do cliente. Tudo era acompanhado pelo mais profundo respeito, comum aos homens com alguma dignidade. Hoje, na câmara dos deputados, onde os assentos são de couro e o revestimento é de veludo, um canalha aparece para fazer o seu discurso, outro já grita: “terrorista!” A torcida reage: “O Dirceu é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo!”. Um levanta um saco de lixo, outro grita corrupto, começa o tumulto, começa a briga, até mulher se mete no meio. O dono do bar tenta acalmar os ânimos, corta a bebida. Não adianta. A pouca vergonha só acaba quando a polícia chega, a sessão é encerrada e o bar, fechado.

20 junho, 2005

Laranja Mecânica

"O de que o governo mais se ufana, entende, é o modo pelo qual cuidou do crime nestes últimos meses. Recrutando jovens desordeiros e brutais para a polícia. Propondo métodos de condicionamento que debilitam e solapam a vontade. Nós já vimos isso tudo antes, em outros países. A ponta da lança afiada. Antes que se possa perceber a quantas anda, tem-se o aparato completo do totalitarismo"
Trecho da terceira parte do livro de Anthony Burgess, A Laranja Mecânica. No Brasil isso se chama aparelhamento, ajuda aos movimentos sociais, organização de militância. Atitudes muito corretas.

06 junho, 2005

Vem DENEM, DENEM vem. (parte II)

A DENEM (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina) foi criada em 1986 devido a uma ruptura com a secretaria de Biomédicas da UNE (União Nacional dos Estudantes). Na época, o Brasil passava por uma intensa agitação política com a queda da ditadura. Também foi a época da criação do Sistema Único de Saúde, o SUS. A DENEM surgiu nesse cenário como a representante maior dos estudantes de medicina do país que, se unidos, acreditavam ter uma voz mais forte no novo clima democrático. Acabou se tornando uma instituição com maior poder político do que talvez fosse esperado pelos estudantes dos anos oitenta, com papel importante na implementação do SUS.

O seu slogan é "Movimento em Defesa da Vida". Um dos seus mais importantes projetos, o "Saber em Movimento", custaria R$ 246.100,00, o último orçamento ficou em torno de R$350.000, como me foi informado no último EREM da Sul I. O projeto consiste em mandar para os mais diversos cantos do país (em encontros regionais e nacionais) estudantes engajados na "transformação social" e "formação em saúde". Como é explicado na cartilha do "Saber em Movimento" (que contém um parágrafo dando o objetivo geral do projeto e quatorze páginas explicando como formar militância política) ele consiste em formar "coletivos estudantis, com clareza de objetivos, reconhecendo-se como parte de um movimento orgânico com vistas a mudança no ensino de graduação em saúde e com uma agenda de trabalho estruturada para tanto". Essas mudanças no ensino de graduação em saúde visam, em último plano, a formação de médicos para atuarem no Sistema Único de Saúde. O atual ministério da saúde é grande parceiro da DENEM e, provavelmente, o maior financiador desses projetos. Só para esse, seriam gastos R$ 10.000,00 reais em dois laptops, R$ 375,00 em fotocópias e R$ 41.200,00 em passagens aéreas e terrestres para os militantes, segundo o primeiro orçamento liberado por eles. Todo esse dinheiro gasto em um projeto dito de saúde mas, que em sua cartilha explicativa, não cita nenhum problema da saúde pública no Brasil.

Os membros da DENEM costumam descrever o movimento como "uma coisa mística", "uma criação coletiva", "uma reunião de subjetividades engajadas em um fim comum", “uhuuu!”. Um lugar onde ninguém quer saber de hierarquia, se essa consistir em uma obediência por motivos racionais. As autoridades existem, mas estão dissolvidas e são do tipo carismático, que se obedece justamente porque não se compreende. O único critério é o “sentimento de participação”, que diferencia os integrados na nova onda dos simples pagãos, ainda não tocados pelo espírito da horda. Depois de algum tempo integrados, poucos confrontam as idéias do movimento e, se o fazem, é porque são radicalmente a favor. Tão a favor que brigam com os que são só a favor. No último congresso nacional dos estudantes pude presenciar situações que deixariam os líderes da Igreja Universal com inveja. Fiquei abismado após assistir a um discurso de um dos seus mais influentes líderes, que depois de falar sobre um determinado problema, cheio de movimentos e trejeitos, eu não sabia nem o lado que ele estava tomando na discussão. Mesmo assim, ele conseguiu arrancar aplausos calorosos da platéia servil que o tratava com a mais profunda admiração. Eles conquistam quem puderem conquistar. O sentimento de unidade os fortalece e os problemas pessoais são esquecidos. Quem não concordar com as normas ditadas pela gestão do diretório é visto como um estranho e logo aparecem quatro ou cinco militantes para convencê-lo do contrário. Se mesmo assim o infeliz insistir em se opor, eles começam a aparecer displicentemente no seu alojamento para conversar sobre um determinado assunto e, nas reuniões em que o sujeito participa, passam a aparecer militantes do alto escalão que se sentam displicentemente em algum canto da sala para organizar fotos ou qualquer coisa que não lhes exija muita atenção. Se mesmo assim o sujeito não calar a boca, ele passa a ser observado para que se evite a corrupção de novas mentes.

Esse pessoal andou passando pelo CASL (Centro Acadêmico Sarmento Leite), do qual faço parte hoje. Na época, era comum usar a "técnica do acolhimento" ou o "apadrinhamento". Essa se baseava no seguinte: sempre que um aluno novo fosse pela primeira vez a uma reunião, um "guru" sentava-se ao seu lado para explicar-lhe sobre aquele monte de coisas complicadas da reunião: DENEM, COBREM, ABEM, FODABEM e todas essas siglas que restringem o seu uso aos "entendidos" do assunto. Assim, eles muitas vezes conseguiam plantar nos alunos (muitas vezes bixos, que eram mais desprezados, ou acadêmicos com espírito de rebanho, que representavam eles ontem) a sementinha em "defesa da vida". Ou seja, ser contrário ao projeto de lei do Ato Médico, admirar o modelo de medicina Cubano, ser contra as entidades médicas e assim por diante. Tudo rebuscado por palavras místicas e siglas obscuras. Se o pobre aluno aceitasse isso tudo, o esforço estava justificado: estava formado mais um idiota útil para ser usado nas manobras do movimento. O desfecho de tudo isso foi visto na faculdade. O Centro acadêmico ficou sucateado, odiado por seus próprios acadêmicos (as "subjetividades rebeldes"), sem ação em prol do seu corpo discente, engajado nas oficinas do Fórum Social Mundial (nas quais eles compareceram em peso no último), nos movimentos sociais e nos partidos políticos. Todo o funcionamento do que deveria ser um local de referência acadêmica para os estudantes engajado na formação de militantes políticos.

No estatuto, faz parte da DENEM todo e qualquer estudante de medicina. Ou seja, passe no vestibular e ganhe de brinde a carteirinha de membro do clube. O problema é que quase ninguém sabe disso e, mesmo quem sabe, não tem tempo ou interesse para se meter com um pessoal tão complicado. Eu não me importaria nenhum pouco com eles, não fosse o poder que eles estão ganhando. Não são poucos os ex-membros de gestões da DENEM que hoje estão no Ministério da Saúde pensando em todas as maneiras possíveis para interferir na vida do médico. Uma reformulação completa da profissão está sendo discutida. Vai da implementação de um sistema público de saúde onde todos os médicos deverão trabalhar até a possibilidade de troca do nome "médico" por "agente de saúde", que ofende menos. Sim, amigos, a palavra médico é socialmente ofensiva, e chega dessa visão pequeno burguesa do médico como um profissional liberal. A ordem agora é trabalhar para o governo, que é quem sabe o que é melhor para a nação. Então, caros colegas, abandonem os gastos supérfluos naquela boa churrascaria do sábado e vão logo baixando os seus narizinhos. O nosso futuro, pelo visto, estará imerso em burocracia.

***

Quando me disseram no EREM que o “Saber em Movimento” custaria R$350.000, perguntei de onde viria o dinheiro. “Vem do Ministério da Saúde”. Procurando na internet, achei o preço de alguns tratamentos para doenças comuns no Brasil. O tratamento de pacientes com problemas de colesterol custa R$70 por mês, com hepatite C, R$153,24. Para a AIDS, a Organização Mundial de Saúde pretende baixar o custo para U$50 por mês. Isso quer dizer que esse dinheiro poderia pagar durante um ano o tratamento de 357 pacientes com problemas de colesterol, 163 pacientes com hepatite C ou 200 com AIDS. Me pergunto se os que ainda acreditam na DENEM nunca se sentiram enganados... Parece que saúde não é mais tão importante, o que é bom negócio é financiar militância de suporte ao governo federal.

PS: Esse texto é uma mistura de dois outros e saiu no jornal "O Bisturi".

 
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