Os altos círculos do poder
Eu costumava freqüentar um barzinho aqui perto de casa onde me encontrava com um amigo para tomar uma ou duas cervejas e conversar sobre o que observávamos nos jornais e na TV. Acreditávamos estar diante da decadência da civilização ocidental. As mesas do bar eram de madeira, com toalhas de plástico azul e branco. Um senhor se sentava com duas ou três meninas. As vezes entrava um pai de família e o cumprimentava: “Como vai, seu Castanha?”. Quatro ou cinco trabalhadores do bairro apareciam por um tempo e tomavam sua bebida com tranqüilidade, depois voltavam para empurrar os seus carrinhos com papeis e plásticos. O dono do estabelecimento era eficiente e atencioso, sempre com um sorriso aberto enquanto trocava os cinzeiros das mesas. Todo mundo se conhecia e conversava numa boa, nunca vi uma discussão ou briga, nem quando a máquina de bingo eletrônico trancava a moeda do cliente. Tudo era acompanhado pelo mais profundo respeito, comum aos homens com alguma dignidade. Hoje, na câmara dos deputados, onde os assentos são de couro e o revestimento é de veludo, um canalha aparece para fazer o seu discurso, outro já grita: “terrorista!” A torcida reage: “O Dirceu é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo!”. Um levanta um saco de lixo, outro grita corrupto, começa o tumulto, começa a briga, até mulher se mete no meio. O dono do bar tenta acalmar os ânimos, corta a bebida. Não adianta. A pouca vergonha só acaba quando a polícia chega, a sessão é encerrada e o bar, fechado.





<< Home